domingo, 14 de novembro de 2010

Distimia*

    É mais difícil que eu pensava, saber que existe a pessoa que te completa e não senti-la por perto. Ele é sem dúvidas a razão do meu dia completar.


    Nos últimos meses, minha postura social mudou muito: me sinto cansada demais, me perco nos pensamentos, já não falo (nem pra fingir a minha felicidade). Tudo mudou. Até meus amigos estão se afastando, não consigo disfarçar a minha solidão e a incapacidade de amar outra pessoa. A dor que eu sentia era apenas psicológica, ela evoluiu... passou pra dor física, a dor que mata o coração, a dor que judia dos olhos e a dor que não fala. Sinto até medo de abrir a boca e sair dela palavras incuráveis. 
    Já teve a sensação que era feliz e não sabia? O tempo que cura não me procurou até hoje. Espero há tempos sua gloriosa visita. Confesso que não tenho condições físicas e muito menos emocionais para segurar minha dor. Daria tudo para apenas vê-lo e sentir a alegria de que ele verdadeiramente existe, que isso não é loucura da minha cabeça, que eu posso confiar nele cegamente e dizer que sempre o amarei (mesmo ele não sentindo o mesmo). Queria ter a sorte de vê-lo sorrir e ter a inveja de vê-lo alegre em simplesmente viver.
    Meu amor não é doentio. O meu amor existe porque a razão da minha existência até agora existe. O meu amor se realiza por saber que ele foi capaz de amar quem não vê. Eu queria ouvir sua voz nem que seja pela última vez. Não importa sua distância longínqua da minha, a felicidade dele sempre será a minha prioridade.
    As vezes tenho a ousadia de me perguntar se ele pensa em mim. Mas eu tenho a certeza absoluta que não. Ele não desperdiçaria seu precioso tempo pensando em mim. 

* Distimiaé um tipo de depressão que se caracteriza principalmente pela falta de prazer ou divertimento na vida e pelo constante sentimento de negatividade.

sábado, 9 de outubro de 2010

A escola

    No meio dos burburinhos e das conversas paradas, retiro uma linha de pensamento para lhe dizer do meu silêncio. Cansei das palavras sem nexo, dos sorrisos forçados... as vezes chego a nítida certeza que minha vida é tão banal chegando ao cúmulo da inutilidade. Chego ao ponto de me esconder dos rostos se é que são. O que vejo são apenas máscaras vivas escondendo seu desespero no olhar. 
    Se as máscaras soubessem do que eu sei, teriam medo, da sua própria face deformada refletida no espelho. O espelho já nem mostra seu espírito, mostra apenas os erros imperdoáveis de algo que chamam de vida.
    Aqui no meu refúgio eu posso descansar e ter pelo menos uma paz. Ninguém me incomoda com futilidades, ninguém me aplaude e nem me zomba. Como se eu fosse a porta dos novos mundos, a porta dos sonhos sem ser reconhecida. É tão bom se sentir sozinha que tenho medo do meu único refúgio virar realidade.
    A escola estava insuportável, o barulho do som, das pessoas e até mesmo das pisadas no chão me deixavam frustrada. O olhar caótico de todos e as mesmas e intermináveis conversas de sempre. Os professores brigando, os meninos ainda brincando de bolinhas de papel e as meninas preocupadas com os cabelos. Muito cético. 
    A escola é sempre a mesma droga. Vamos continuar a farsa e deixar isso te enlouquecer.


Lost

    - Eu sou várias das quais nenhuma delas você poderá enxergar.
    
    Melhorei bastante de ontem pra hoje. O dia foi bem estranho, não senti náuseas e minha cabeça começava a se conformar. Respirava sem interrupções e na maioria das vezes eu assistia o dia tedioso com certa disposição. A cabeça ainda doía o que arruinava meu plano de dia feliz. 
    Nunca gostei muito de sair de casa, mas minha mãe já me obrigara a mudar isso dizendo que os meus vizinhos achavam que eu era uma muda.
    - Gosto de ficar pensando e afinal mãe, são eles que não falam comigo - defendi-me com certo tom de ironia.
    - Isso não quer dizer nada - depois ela saiu.
    Acho que me exclui das pessoas nos últimos meses. Suspirei. Tudo acaba - sussurrei. Fora os problemas básicos que vocês chamam de vida, eu estou bem. Não desistirei ainda, como diz o Chris Martin: "Mas eu não tenho dúvidas, um dia o sol saíra". 


domingo, 19 de setembro de 2010

Debilidade

    Ninguém se importava com aquilo, era tudo rotinal, mas ainda sim a dor sempre foi surpresa pra mim. Consigo me lembrar das outras vezes, me lembrar com os olhos apenas. A dor que vinha sempre passara por mim e depois despedia-se feliz por ter o serviço feito. Tentei em vão afastá-la daqui, nem sei porque. Depois eu me via entrar melodicamente, inútil nos piores doces pesadelos que me contava. Um ser se desgasta de sempre correr para o lado contrário. Por um momento, senti sua presença, imediatamente, corri para me isolar e esquecer da voz dele.
    - São apenas vozes... são apenas sonhos - pensei. 
    Revirei-me, a dor que viajava na minha cabeça já era física e se eu não me cuidasse iria ter que aguentar aquilo. Passei meus dedos nos dois lados da minha cabeça e massageei-os em círculos imperfeitos. Nada. Suspirei levemente e quase dopada me apoiei nos braços da cama e sentei... atônica. Parecia vertigem, mas era apenas saudades. Levantei-me e forcei minhas pernas a caminhar.    

Tristeza

    Continuo exausta. A respiração leve e frustrada. Não tinha condições suficientes para levantar dos sonhos e erguendo coragem fui até o terraço. Minha irmã estava lá, concentrada estudando história. Pelo menos aqui o vento me consolava das ondas quentes pela manhã. Sinto vontade de dormir, já estou bem cansada das bobagens inúteis da minha vida.
    Bocejei. - Boba - pensei. A vida é só um plano, mas com certeza amanhã vai ser muito mais difícil. Pela primeira vez penso nos estudos e não nos meus caprichos rotinais. Não consigo pensar, estou morta, cansada demais pra desperdiçar sermões. Espero coragem pra mais tarde.

-

    Já é noite. As lágrimas caíram quentes ao longo do rosto. Comecei a sentir que a minha cabeça fervia, talvez, não fosse nada. Me acostumei com a visita daquela tristeza que me apavorava só de pensar. Meus olhos pesados abriam e fechavam igualmente. O corpo já se curvava de dor, febre talvez. Abracei com força o urso de pelúcia que dormia ao meu lado, tentei não acordá-lo.    

domingo, 15 de agosto de 2010

Hora de acordar

    -
    
    Amanheceu. O dia ainda era indiferente. O calor estava desprezível e senti um leve impulso de recusá-lo e continuar deitada na cama. Mas lembrei que não estava só e tinha que sair daquele estado vegetativo. Fui deixá-la e na volta percebi que o calor aumentara. Aquelas ondas quentes me acertava à medida que tentava voltar pra casa.
   Ca-lor - falei. Fechei os olhos lentamente e balancei a cabeça para os lados, quando os abri tive a sensação que parei na rua e comecei a caminhar, incrédula do que se passou. Entrei em casa. Tinha que estudar, mas meus pensamentos (que criavam vida própria) procuravam me levar até onde a brisa é fria, imperceptivelmente, doce. Talvez alegre, talvez triste. Isto vai depender dos olhos.
   Dialogando com o vazio decidi levantar e caminhar... ou melhor estudar. Minhas ideias eu aniquilarei, não irei ser prostrada. Dessa vez não. 
  Sempre saberei que o torpor voltará. Então esperarei por ele aqui em pé. Firme. Incrivelmente inabalada, como se eu me transformasse diante de uma guerra (e na verdade era). A batalha em que eu preciso vencer, pois ela me quer ver morta no chão frio. Se for assim, levarei-a comigo. 

sábado, 14 de agosto de 2010

Confissão

 - Porque meu maior medo era que ele se transformasse em uma lembrança que se afogasse no desespero.

   Estava anoitecendo. A sala estava silenciosa, não havia nada a falar. Os meus olhos lutavam para não cair na armadilha de chorar. Talvez, isso era o que eu queria... me jogar contra aquelas lembranças. Eu já não pronunciava seu nome
   - Eram somente palavras - pensava. Mas doía só de pensar em todos os momentos que eu o segurei para não cair sozinho e acabar na solidão.
   Uma vez me falara que me amaria pra sempre. - Sempre - cuspi. Cadê o 'sempre'? Agora já não importava, eu iria ter que aguentar isso até o final. Isso é, se acabar um dia. Minha vida escondida por atrás de mentiras alojadas na parede de vidro, já se tornou um mistério. Daqueles que tu ver e apenas vira a cara como um idiota.
   O jogo limpo. Não vale nada se não te deixam acordar. A vida é simples, se tu não se mata, acaba morrendo no final. Pois ela é sem saída, a explicação é tu que escolhe.
   Ainda assim, o mais difícil era suportar tudo sem se ferir. As cicatrizes doem mais que a própria faca.